Ela já não lembrava como era a sensação de ser surpreendida por um telefonema. Tinha tentado esquecer essa possibilidade – por pouco não apagara aquele número de sua agenda. Era apenas um final-de-semana de verão, de um calor intenso, úmido, e que a deixava desanimada e sonolenta. Não existiam expectativas.
Ela não fazia idéia, mas eram sete e meia da noite. O dia ainda estava claro, o calor ainda era intenso, mas ela estava enroscada em uma manta de algodão, entre almofadas e um travesseiro. Ela não queria acordar, embora apenas cochilasse. Por sorte, era um cochilo pesado, que mais parecia com um sono profundo. Existiam imagens em sua cabeça, que se assemelhavam com seus sonhos.
Foi quando o telefone tocou. Incomodada com um som estridente, ela demorou a perceber que algo esperneava em seu criado-mudo.
- Lívia?
- Sim… ?
- Oi, tudo bem? É o Pablo.
- Oi… tudo bem, e você?
- Tudo tranqüilo. Tava dormindo?
- Não, não… apenas descansando.
- Ah… quanto tempo, hein?
- Pois é, você some.
- Ah, esses últimos meses foram cheios.
- Eu imagino…
- Mas e você? O que me conta?
- Uhm, tudo certo… nada de muito novo.
- Aproveitando a casa nova?
- Ah, sim. Estou adorando. E você, novidades?
- … Comprei o sofá!
- Maravilha!
- Você não vai vir conhecer?
- Um dia, quem sabe.
- Hoje!
- Não sei…
- …
- Bom, só se for bem rapidinho…
- … Tá!
- Que horas?
- Agora.
- Uhm… tá bom. Só preciso tomar um banho.
- Tá bom. Te espero.
- …
- Beijo!
- Outro!
Em um pulo, levantou-se da cama. Apressou-se em tomar banho e, enquanto se ensaboava, já ia idealizando a melhor roupa para o encontro. Primeiro, imaginou algo sexy, como uma mini-saia jeans, salto fino, uma blusa mais decotada. Mas não, não poderia dar a entender que estava ali querendo arrebatá-lo de uma só vez ou simplesmente querendo levá-lo para cama. Era preciso fingir que aquela seria uma visita qualquer, despretensiosa; um encontro de antigos amigos. Para tal, era necessário vestir-se com um certo comedimento, com um ar um pouco despojado até. Escolheu um vestido simples, nem curto nem cumprido, de uma cor neutra, mas de estampa moderna.
Adornou o colo com um colar de pedras brancas, colocou dois anéis no mesmo dedo; manteve os brincos de strass que não tirava nunca. Ao invés de salto fino, preferiu uma sandália mais baixa, porém não menos charmosa. Antes de vestir-se, passou o creme hidratante de todo dia em todo o corpo. Secou apenas a franja, para manter o ar natural dos cabelos. Passou um pouco de pó no rosto, mas o efeito do calor em sua pele era muito mais eficaz: seus poros não paravam de expelir suor, deixando a pele brilhante de qualquer maneira.
Chamou o táxi. Chegou em seu endereço em menos de 15 minutos. Eram oito e cinqüenta e sete, e ela já estava na portaria do prédio. Ao invés de falar com o porteiro, telefonou em seu celular.
- Alô.
- Pede para o porteiro abrir?
- Já chegou?
- Sim.
- Ele já tá abrindo.
- Tá bom.
Ao descer do elevador, deu de cara com Pablo, que a aguardava à porta de seu apartamento. Ele sorria. E foi aí que ela se deu conta que sentia mesmo saudades até daqueles dentes. Ah, como eram brancos e pontudos... Ah, como ela gostava daquele sorriso…