QUANDO VISITEI SUA CASA
Já não me lembro o motivo, mas sei que entrei em seu apartamento. Era bem mais amplo do que aquele que eu costumava freqüentar quando tínhamos vinte e poucos anos. Sabe como é... o primeiro apartamento é sempre muito modesto.
Ao entrar, fiquei impressionada com o número de cômodos. Mas, aos poucos, fui percebendo que a desordem era a de sempre e que isso deixava aquele lugar quase do mesmo tamanho do antigo quarto-e-sala. Com alguns passos, pude observar quatro ou cinco cômodos. O primeiro foi a sala de TV. Era quadrada, com sofás de couro marrom escuro igualmente quadrados, cortinas escuras, e uma TV dessas grandonas, ligada em um canal desinteressante.
Em seguida, passei por uma saleta, onde havia uma mesa cheia de tralhas inidentificáveis. Algumas malas ou mochilas também adornavam a desordem do chão. Esticando um pouco mais o pescoço, avistei um dormitório, com uma cama de solteiro completamente revirada: cobertor de um lado, travesseiro do outro, lençol retorcido. Apesar da bagunça aparente, tive a sensação de aconchego. Acho que eles costumam dormir juntos ali - pensei.
Estranhei o fato de haver um segundo quarto com uma cama de casal tão aparentemente intocada. Dali de dentro, vinha uma luz levemente amarelada, que deixava a colcha verde-azulada sobre a cama ainda mais bonita. Nesse momento, tive vontade de perguntar “quem dorme nesse quarto?”, mas pensei que seria bem inoportuno. Além do quê, eu estava muda desde minha chegada. Seria bem estranho querer falar justo sobre o quarto (que ao menos deveria ser) do casal.
O terceiro parecia um quarto de adolescente. Muitos objetos pelas estantes, o aparelho de som, e um longo barbante que ziguezaveava pelo teto, segurando dezenas de envelopes coloridos. Achei curioso, e me aproximei para tentar compreender do que se tratava. Foi um misto de surpresa e não sei quê. Em quase todos aqueles papéis estava escrito “Paulinha”, como se eu fosse a remetente das cartas. Observando mais de perto, pude reconhecer alguns deles. Haviam sido realmente enviados por mim. Um postal de Goiás, um outro cartão dizendo “saudades”... Não, eu não compreendia.
Ao me virar, dei de cara com ela. Usava uma blusinha vermelha desbotada e tinha cara de sono. Ao perceber que eu andava por ali, sequer mudou sua feição. Continuou zanzando pela casa, como quem procura a coleira do cachorro. Ao me dar as costas, continuei a observá-la. Tinha os cabelos pretos, lisos, compridos e ralos. Não era bonita. Era exageradamente magra. E usava um shortinho exageradamente curto, desses que só as magérrimas conseguem usar sem erotizar o visual.
Foi quando ele apareceu, enfim, na minha frente. Era o mesmo menino de 10 anos atrás. Idêntico. Nem uma ruguinha no rosto pra afirmar que o tempo tinha passado. Nada. Usava a mesma Hering branca. E quando digo a mesma é porque devia ser a mesma mesmo.
Ele sorriu. Sorri também. Ele não disse nada – acho que sabia que não era necessário. A casa dizia por ele. E o que ela dizia era algo que me deixava com boas sensações – embora mantivesse aquele mundo incompreensível para mim.
Escrito por Paula Biza às 13h53
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