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comme d´habitude
 


A TAL CONVERSA DEFINITIVA

Quatro anos e quatro meses. O tempo exato que aquela história durava. Mas por não ser algo constante, a verdade é que era muito menos que isso. Talvez chegasse a um mês. Um mês intenso. Depois desse tempo todo, veio a conversa; aquela que deveria ser definitiva.

- E aí? Como ‘cê tá?

- Tô bem. Na correria, pra variar, mas bem.

- Legal.

- E você?

- Bem também. Tô pirando com alguns projetos novos que surgiram, estudando bastante... Mas assim que é bom.

- É verdade.

- Mas e aí? Bebe alguma coisa?

- Eu? ... Ahn...

- Deixa eu ver algo pra gente...

Talvez fosse melhor mesmo ter aquela conversa com algum teor etílico na cabeça – pensou ela.

- Salinas. Acho que a gente já bebeu uma outra vez aqui em casa, não foi?

- Foi... lembro bem.

- Maravilha!

- Mas então... você sabe bem por que eu vim aqui hoje... né?

- Sei... sei sim. Pode falar.

- Olha... é bem complicado pra mim... Há muito tempo que eu queria te falar... E eu nunca soube por que esperei tanto...

- Eu acho que sei por quê.

- Ah sabe?

- Eu já te disse isso... Você sabe que é assim...

- Ah, os ciclos...

- É.

- Mas eu não gosto deles. Não adianta. Não me fazem bem.

- ...

- Não é da minha natureza.

- Eu entendo...

- Mas é da sua...

- Quem disse que é?

- Ninguém disse... Mas é o que você demonstra.

- Você sempre demonstrou assim também.

- Mas eu não estava sendo eu.

- Ué... Por quê?

- Eu tava apenas querendo te acompanhar... Pra não te perder de vez.

- Me perder?

- Achava que se eu fosse eu mesma você não iria gostar. E fugiria pra sempre.

- Eu não fujo de você.

- Mas também não me procura.

- Eu não procuro ninguém... Você sabe.

- Mas é disso que eu não gosto... Essa espera.

- ...

- Por que a gente não pode ser mais constante?

- ...

- Eu não tô falando de namoro, de compromisso... De nada disso. Eu só quero mais convivência, entende?

- Eu sou um cara difícil de conviver.

- É isso o que eu quero descobrir. Eu não quero mais fantasiar que você é assim ou assado... Eu quero vivenciar isso tudo.

- Você se decepcionaria...

- É disso que eu preciso! Não posso mais viver idealizando você...

- Talvez seja a melhor coisa.

- ...

- Eu perderia o encanto pra você...

- Como você pode ter tanta certeza?

- É o que acontece com todo mundo.

- Pelo menos esse todo mundo vive.

- Você vive também... a gente vive. Mas só vive o que é realmente bom.

- Eu sei... É maravilhoso... Mas... E depois?

- Não pensa no depois.

- Mas ele existe! ... Ele vem!

- Esquece isso...

- Não dá... Dói demais em mim!

- O que você quer, então?

- Já te disse...

- ...

- Quero partilhar mais... Por que tem que ser tão difícil?

- Porque não é pra ser assim...

- ...

- Não vamos estragar tudo...

- É horrível ficar sem saber quando será a próxima vez.

- Por isso que é tão bom.

- Você é demais, sabia?

- ...

- É isso, então.

- Já vai?

- ...

- Você mal bebeu sua pinga.

- Deixa pra próxima vez.

 

Ela deixou o apartamento, certa de que não haveria próxima vez.

 

 

 

[Texto originalmente publicado no site Cronistas Cotovelares, onde foi incluída a seguinte nota de rodapé: “Paula Bianca é infamemente bem humorada.”] 

 



Escrito por Paula Biza às 08h55
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