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comme d´habitude
 


COISAS QUE ACONTECEM

Depois de ganhar, o perder já não importa. Porque depois de ganhar a gente quer ganhar mais uma vez, mas quer ganhar o jamais ganho. É estimulante manter o desejo não realizado – muito mais do que desejar o que está ali, nas suas mãos. É nítido o desinteresse de quem conquista o conquistado. Mas, como não poderia deixar de ser, ninguém diz.

 

Existem sim aqueles que cultivam, alimentam. Mas isso não significa apenas fazer o bem. E o bem, ah o bem..., esse pode ter muitas caras. Porque tem o meu bem, o seu, o dele, o delas. E, sinceramente, eles são sim completamente distintos. Posso até dizer que o meu bem também é o seu; mas, não vire as costas. É o suficiente para o meu bem se transformar, ou melhor, revelar a outra face desse mesmo bem que estava oculta.

 

Ah, como é dura a vida do ser sensível. Um mínimo entortar da trilha já entrega tudo. Um sutil gesto corporal que revela um infinito de intenções e desejos. Ah, os desejos... Meu bem nunca perde a chance de vê-los realizados. E realiza. Não se esconde nem se mostra; apenas deixa acontecer. E não quer perguntas. Afinal, as respostas ferem. E ninguém precisa se ferir pra entender que todo bem tem fim.

 

É uma pena que nem todo o bem queira sempre a mesma coisa. E, nesse ponto, tocamos no tema mais fundamental: a coisa. Tudo começa e termina nela – até mesmo o nosso bem. Porque se antes era uma coisa, depois se transforma em outra – mas não deixa de ser coisa. E claro que ninguém tem a obrigação de entender. Mesmo porque, tanto pode ser uma coisa qualquer quanto uma coisa de real valor. De todo modo, é coisa.

 

Mas eu, definitivamente, queria entender como essa coisa começa. Porque “por quê” eu já desisti mesmo de saber. Parece uma coisa sem explicação, que não nasceu pra ser compreendida e tal. Mas, céus, por que então que existe tanta gente atrás de alguma teoria, prova, cálculo, método ou o raio que seja, mas que possa enfim determinar objetivamente essa coisa toda?

 

Eu tenho aqui a minha tese e prometo não me alongar ainda mais. Bom, primeiro a coisa tá dentro de você, quietinha (mas esperando ansiosamente por alguma outra coisa) – viu? começa aqui... Aí, tá tudo muito bem quando, de repente, um outro alguém (que também anda pra lá e pra cá com uma coisa guardada, quietinha, porém imprevisível) aparece. É nessa hora, exatamente aí, que deve acontecer alguma “coisa”. Porque, sem isso, fica tudo na mesma. E eis que acontece. Pronto! O que era uma coisa imperceptível (por isso todo mundo achava que nem existia) vira uma coisa louca, que vem do nada, te faz sentir louca, desvairada, sem nenhuma noção da vida... e tá feito.

 

Enfim, depois disso, a coisa fica lá, flanando por aqui e ali, sem hora pra partir. E a gente passa a chamar essa coisa de tudo quanto é nome e dá infinitas definições (todas imprecisas, evidentemente). Uns acham que é o tal do bem. Ok, pode até ser. Mas, nesse caso, a coisa é individual. Porque antes de ter outros nomes, a coisa é uma só – embora seja formada por coisas provenientes de seres e/ou pessoas distintas.

 

Tá. Esse texto se transformou numa coisa sem pé nem cabeça. Mas, vale dizer: na primeira linha, ele era uma coisa – um bem, um mal, enfim, depende de quem conta o conto. Agora, depois de ter se misturado a inúmeras outras coisas, passou a ser uma coisa completamente diferente – exatamente como acabei de explicar.

 

É, realmente... quem é que entende essa coisa toda?



Escrito por Paula Biza às 01h26
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