SEM JEITO NA CIDADE
Ainda, a cidade me parece estranha.
Por mais que eu atrevesse ruas, aperte botões e tape os ouvidos aos roncos dos motores, eu sei, eu não me acostumo.
E foi tão fácil, por outro lado, me adaptar às águas geladas de lá.
Foi tão natural caminhar sem pressa, falar descompromissadamente.
Me pareceu tão melhor adormecer ao som daqueles pássaros.
Não tem jeito, eu não me acostumo.
Aqui, o anoitecer vem com um algo de cruel. Vem como se você não tivesse mesmo outra escolha. Vem bruto.
Lá não.
Lá ele cai de mansinho, cai exuberante, e se deixa apreciar, lentamente. Quando definitivamente vai embora, o sol deixa cores deslumbrantes. E a gente volta pra casa com um banho de estrelas, pintadas numa tela azul beleza, lilás saudade, laranja desejo, vermelho paixão.
Então, descansa, mas descansa inteiramente, porque o corpo aprende que tudo tem seu tempo. E só acorda quando sente fome, medo ou solidão, mas sem estar aflito. Levantar-se é mais um prazer, porque é se deparar novamente com aquele dia morno e infinito, que traz aprendizados e descobertas fascinantes.
Não existe tédio. Nada pra fazer é como admirar o rio, a noite, a flor, o abismo. Tudo pausadamente. Não existe “que horas são”.
Ninguém fala alto ou desnecessariamente. Se alguém se desentende, sabe que numa prosa se acerta o rumo. Se existe dor, sabe-se que também existe cura – e que ela fica logo ali, disfarçada de verde.
A gente sai, e deixa a porta aberta. A gente anda no meio da rua e não olha pra trás. A gente senta ali no meio-fio e fala sobre tudo, sobre nada, no meio da madrugada. Sim, a gente não sente medo. A gente aprende o que é o sossego. A gente se ama, seja onde for. A gente se deixa amar.
É, a gente não tem medo.
Escrito por Paula Biza às 17h32
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