AMOR CUIDADOR - PARTE 1
Eu poderia não ter me dado conta, mas fazia muito mais que alguns meses. Pensei que minhas dúvidas tivessem partido daquela tarde, morna e densa, quando ele dissera, assim, inesperadamente, que me amava. Pensei que todo o meu questionamento viesse daí. Mas não. Anos e anos separavam-me da origem do meu não saber.
Impossível deixar de lado o que sou e como cheguei até aqui. Tudo o que passei, o que vivi. Tudo ainda vive, de um modo muitas vezes indeterminado, aqui comigo. Mas preferi me concentrar nele; no que experimentei desde o dia em que ele chegou; na nossa história. Talvez a mais bonita das histórias. ... Certamente a mais bonita.
Ele sente amor. E é nítido.
Naquela tarde, eu não estava bem. Além do pastel de camarão e outro de siri, havia o ciúme. Esse sim pesava mais no estômago. Voltamos para a pousada cedo e, no caminho, eu já sentia o enjôo típico de quem não pode suportar o que engoliu. Fiquei calada. Dei àquela ânsia um formato de cansaço e ligeiro sono. O disfarce, aparentemente, funcionou.
Eu também não sabia o que pesava mais, naquele momento. Fui direto pro chuveiro, depois de uma tentativa frustrada de regurgitar. A água morna me aliviou a tensão, apaziguou os nervos... Mas não apagou a minha neurose. Claro que ele não faria nada com uma amiga minha, estando eu tão ali por perto. Não! Claro que ele não faria nada. Não por mim. Mas por ele mesmo. Não parecia, mas eu confiava, e muito, nele.
Do banho para a cama. Evidentemente, eu queria ser cuidada. Eu queria ele por perto, pra ter certeza de que eu estava mesmo com a pessoa certa; que não perdia meu tempo; que não seria melhor ir atrás de um outro alguém. Mas não. As meninas estavam lá fora e ele queria aproveitar seu tempo, fumar um cigarro. Afinal, não podemos desperdiçar nosso feriado, nem nosso dinheiro. De qualquer modo, ele disse que voltaria logo.
Peguei no sono.
Acordei, uma ou duas horas depois, quando ele sutilmente entrou no quarto. Eu continuava muito enjoada. Ele deitou ao meu lado e perguntou se eu estava melhor. Não, eu não estava. Ele perguntou sobre o ENO e eu disse que só não tinha tomado ainda porque não havia água. Ele se desculpou por ter demorado lá fora e perguntou por que eu não o chamara. Disse a ele que não queria incomodá-lo e também que, em pouco tempo, pegara no sono. Ele foi atrás de uma garrafa sem gelo pra mim.
Escrito por Paula Biza às 23h16
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AMOR CUIDADOR - PARTE 2
Tomei o líquido efervescente. Voltei a deitar aos pés da cama, enquanto ele me observava com ar de preocupação e afeto. Sem saber ao certo de onde vinha a minha dor, tocou minha barriga e passou a fazer movimentos circulares, docemente. Fui me sentindo melhor. Era disso que eu gostava: da sua dedicação genuína. E mesmo me sentindo cuidada, reconfortada... a cena insistia em visitar minha memória. Era inevitável. Foi quando ele perguntou:
- No que você está pensando?
- Em nada.
- Nada?
- Nada.
- Olhando assim pro teto, parece que está com o pensamento longe...
- Mas não to pensando em nada. ... E você? No que tá pensando?
- Eu?
- É. Me fala você.
- To pensando que eu te amo.
- ...
É o prazer de cuidar. É o amor maduro. Não se ama para ser amado, nem se ama porque é impossível de ser conquistado. Se ama porque existe gozo no afeto. Porque cuidar do ser amado é tão bom quanto transar com ele. Sim, o gozo sexual também existe, mas não se faz primordial.
...
Meses depois, tiveram uma discussão. Foram duas ligações telefônicas que o deixaram chateado. Na primeira, ele esperava que ela, prontamente, lhe recebesse com palavras de amparo. Na segunda, queria o seu apoio em forma de felicitações. Mas não. Pega de surpresa ou por pura espontaneidade, ela reagiu com palavras que o deixaram ainda mais preocupado, na primeira. Na seguinte, lamentou os contras de uma promoção no trabalho e, só depois, lhe deu os cumprimentos.
Diante daquela sua chateação, ela entendeu não ter mesmo reagido da melhor forma. E, embora ele considerasse agressivo o termo “máquina de corresponder expectativas”, era exatamente isso o que ela não era.
Acertaram-se.
Ele confessou que, ao sair da casa da mãe, passou a se dar conta do quão dependente ele era da presença das outras pessoas. Especialmente das pessoas que ele ama. Então, contrariando sua inflexível postura de senhor independente, ele disse que, sim, ele precisava ser cuidado. Era extremamente necessária a sensação de estar sob as asas de alguém, mesmo que momentaneamente. Ali, tive certeza: esse alguém era eu – e eu gostava disso.
Eu estava, assim, livre para cuidar dele – e não super-protegê-lo, peloamordedeus. De fato, eu já havia percebido que, em certos momentos, era como sua mãe que ele queria que eu agisse. Não, isso ele ainda não admitia. E nem eu seria como aquela jovem senhora de olhos puxados. Eu seria eu mesma. E, cada dia mais, perderia aquela enfadonha indiferença aos laços de afeto. Só assim eu liberaria todo o meu amor cuidador. E, com sabedoria, talvez encontrasse o real sentido da vida e da felicidade.
Escrito por Paula Biza às 23h16
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