DESAFIO À SUPERFÍCIE
... Juntou os pés. Tentou manter o equilíbrio sobre a estreita madeira que criava o limite entre o barco e o mar. Pensou no conforto que seria manter-se seca, segura e confortável ali na proa. Mas, ao mesmo tempo, também vislumbrou o encanto que poderia surgir no momento em que ela se atirasse naquelas águas.
Sem mais um pensamento sequer, mergulhou.
Por estar tão cheia de vontade, seu corpo acabou indo fundo demais. Chegou a engolir um pouco de água antes de conseguir voltar à superfície. Tossiu o mais baixo que pôde. Diante das outras pessoas ali por perto, tentou não demonstrar seu ligeiro desespero. Enfim, livrou-se da água que entrara pelo nariz. Quis nadar.
Sentindo-se completamente livre, deu largas braçadas em direção ao rochedo que cercava a baía. Depois, ficou boiando, com a cabeça enfiada na água. Queria sentir frio na barriga, fixando o olhar em um ponto perdido do fundo do mar. Gostava de imaginar que, naquela direção, não existiria fim.
Num gesto um tanto aflito, alguns segundos depois, tirou rapidamente a cabeça da água. De súbito, ela fora tomada por uma breve vertigem. Preferiu nadar para mais perto do barco e das outras pessoas que a acompanhavam. Era quase uma da tarde.
“Você não gosta das coisas definitivas.” Lembrou-se dessa frase, por alguma razão. Talvez, pelo incômodo gerado pela afirmação. Isso é mentira!!! – pensava. Mesmo assim, não conseguia encontrar argumentos para refutá-la. Dias depois, o argumento lhe surgiu. Ela estava imersa em seus pensamentos, sozinha e um pouco irritada também. De repente, lhe veio à cabeça: “Não é não gostar das coisas definitivas. É justamente o oposto. Trata-se de desejá-las demais e, exatamente por isso, ter medo delas; medo de não conquistá-las nunca.”
...
Agora, ela sentia-se diante de uma obviedade - e simplesmente não sabia o que fazer com isso. Então, lhe veio a imagem da superfície da água. Ela queria enfiar a cabeça, ter vertigens, contemplar o desconhecido, encantar-se com o misterioso. Ou apenas olhar praquilo que os outros não se arriscavam a conhecer. Não só pelo gosto de ser diferente, de fazer diferente, mas pela incansável vontade de ir além.
Mesmo que não tivesse alguém para acompanhá-la. Mesmo que não tivesse com quem compartilhar seu encantamento. Mesmo que, para isso, ela tivesse que abdicar do seu conforto e segurança. Mesmo assim, ela queria mirar o infinito e deixar-se levar por ele. Não, ela não queria ser pluma ao vento. Ela queria ser apenas ela mesma: inteira, intensa e verdadeira. Fosse na imensidão do mar, fosse no estreito da terra.
Mas ela não conseguia.
Escrito por Paula Biza às 23h46
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