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DIAS DE SILÊNCIO

Sete e vinte e um. Ainda não era completamente noite. Pelas vidraças, entrava uma luz esverdiada que não chegava a deprimir, mas também não atenuava aquela melancolia. Em pé, parada, sozinha no escritório, ela procurava entender o que aquele silêncio tinha pra dizer. Mas eram tantos pensamentos entrecruzados que, mesmo no vazio, era impossível compreender seja lá o que fosse.

 

Pensou na ausência. Ela gostava da sensação de, aparentemente, não ser vista por ninguém. Não que quisesse fazer algo de errado ou ilícito. Mas porque estar sozinha, fisicamente sozinha, lhe gerava um real prazer. Era como se pudesse, enfim, sorrir, sem o peso de alguma repreensão. Estar ali consigo mesma lhe trazia a idéia de auto-suficiência. Sorria porque tinha a certeza que ninguém partilhava daquele momento. Aquele universo de luz, sombras e silêncio era todo dela; somente dela.

 

Chegou a pensar ser mais que o resto do mundo. Saber mais. Era quase um poder mais. Isso porque, acreditava, só ela conhecia a si mesma, com todas as suas verdades e mentiras. Ela enganava pessoas – embora soubesse que, para tal, era preciso enganar a si mesma também. Não fazia nada por maldade. Acontecia. Eram os rumos que a interpretação incorreta lhe propunha. Faltaram rédeas mais firmes para conduzir o próprio destino, sabia ela.

 

Contudo, não se culpava por nada. Julgava tudo como necessário. Havia nela ainda a esperança de tudo consertar. Ao sair do trabalho, ela respiraria fundo o ar da noite que caía e encontraria meios de transformar cada mínimo detalhe que lhe desagradava. ... Era sempre essa a intenção. Mas bastava por os pés em casa, largar a bolsa pelo sofá e estirar-se na cama pra voltar tudo ao mesmo ponto de onde se partira. Era nada querer, nada fazer, nada mudar.

 

No dia seguinte, ela não quis levantar da cama. Debaixo das cobertas, sonhava com uma catástrofe que lhe segurasse em seu quarto morno. Nada aconteceu. E veio mais um dia de trabalho. Mais uma vez monotonia. Mais uma quarta-feira sem vibração. A vida seria isso. Até quando? – perguntava a si mesma. ... E o silêncio não respondia.



Escrito por Paula Biza às 11h36
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