Embora estivesse atolada em textos, telefonemas e planilhas, ela ansiava pelo final do dia. O ideal seria ter mais vinte quatro horas disponíveis para concluir minimamente o que não conseguia terminar nunca. Mas o ideal nunca acontecia.
Assim, foi driblando a falta de tempo e de ânimo para tocar aquelas tarefas. Mais um dia além do horário, mais uma reunião que se estende além do previsto – e aquém do necessário. Os problemas pareciam nunca acabar. E as soluções pareciam nada resolver.
Sentada na mesa de reunião, ouvia seu chefe sugerir alternativas, prever resultados. Já cansada, tentava prestar atenção, tentava acompanhar seu raciocínio. Mas, de fato, não queria estar ali. E, no exato instante em que seu pensamento fugiu completamente daquele lugar, o telefone tocou. Sem pensar duas vezes, pediu licença e levantou-se. Sentiu um sopro de felicidade, alívio e leveza ao ver que era ele que chamava.
Ansioso pelo encontro, ele saíra mais cedo do trabalho e disse que em poucos minutos estaria lhe esperando no térreo. Confirmou o endereço e desligou. Ao voltar para a reunião, ela decidiu forçar seu poder de concentração, para que chegassem logo a uma resolução e terminassem o que parecia não ter fim.
Por outras duas vezes, foram interrompidos com os alertas de mensagem que ele enviara para o celular dela. Ele chegara. E estava frio lá fora. Acontece que o chefe não cessava a conversa. Como raramente acontecia, ele não parava de propor soluções, querendo compartilhar idéias e mais idéias. Mas, por mais que soubesse da importância daquele momento, não tinha jeito. Ela não estava mais com a cabeça ali. Ela queria descer de uma vez, encontrá-lo, pedir desculpas por ter deixá-lo esperando e lhe dar um beijo carinhoso – o que só foi mesmo acontecer quase uma hora depois.
Impaciente, ele aceitou suas desculpas, mas pediu pra que não fizesse mais isso. Ela explicou que o dia fora cheio, que sua assistente pedira demissão, que no dia seguinte ela teria uma reunião importante com um cliente insatisfeito e, assim, ele realmente compreendeu a questão. Ela propôs jantar em um restaurante novo, ele gostou. Caminharam até o carro dela e, já sem tanta pressa, chegaram ao lugar.
Mais uma vez, conversaram muito, dividiram segredos, medos, angústias. Confidências que só faziam mesmo um ao outro. Como também sempre acontece, discordaram sobre algum tema sem importância, e ela passou a falar mais alto. Ela não ligava mesmo para os outros, mesmo quando falava sobre assuntos mais íntimos. Ele pediu para que ela não gritasse. Estavam apenas conversando. Ela voltou ao tom normal, enquanto ele parecia falar cada vez mais baixo.
O jantar foi excelente mas, no fundo do prato, ela encontrara um cabelo encaracolado – que definitivamente não poderia ser dela nem dele. Teve nojo, mas já havia comido quase tudo. Tentou não pensar nisso. Não quis reclamar com o garçom. Terminou sua taça de vinho, ele também. Pediram a conta. Racharam meio a meio – embora ele afirmasse ter consumido mais que ela.
Na volta para casa, acabaram presos num trânsito intenso. Véspera de feriado e as baladas da cidade fervilhavam. Ele lamentou terem caído em uma rua tão movimentada. Ela apenas disse que não tinham pressa e que, por isso, não se importava com todo aquele tumulto.
Parados na multidão de carros, músicas e buzinas, riam e conversavam sobre qualquer assunto. Foi quando uma pessoa do carro ao lado chamou a atenção dela. Era um antigo amigo de colégio que esticava o pescoço para confirmar se conhecia aquela garota. “Diogo!” – disse ela surpresa. Ele também parecia surpreso, e lhe perguntou onde estavam indo. “Pra casa”, respondeu ela, para a interpretada decepção dele. Trocando um outro tanto de palavras cordiais, despediram-se, liberando o já congestionado trânsito.
Intencionalmente, ela afastou-se depressa. Pensou em comentar, afinal, quem era o tal garoto do carro ao lado. Mas não, não queria correr o risco de estragar a noite e até quem sabe, os dias vindouros. Ficou imaginando a reação dele diante de uma declaração desnecessária – embora verdadeira. Pensou que algumas revelações podem sim fortalecer uma relação. Mas não sabia até que ponto o que viviam era realmente sólido.
Enquanto não decidia definitivamente se contava ou não, soltou alguns comentários sobre o tal amigo da adolescência. Com ar pouco interessado, perguntou uma ou duas coisas. É, ele não queria mesmo saber mais sobre o fulano. Mudaram de assunto e seguiram rindo e conversando, mantendo o fresco ar da paixão.