CARTA DE UMA PAIXÃO DESESPERADA
Essa carta deveria ser como a breve história que tivemos. Deveria começar aparentemente sem razão especial, mas seguindo a louca vontade de extravasar um sentimento, uma vontade, um algo inexplicável – não por não ter explicação, mas por realmente não haver vontade de se explicar.
Eu sabia exatamente o que a minha exacerbada espontaneidade poderia gerar. Sabia dos riscos que se lançariam sobre nós. Mas eu estava tão embriagada com o êxtase que você me trouxe, que preferi ignorar seus sinais. Me recusei a pôr em prática qualquer gesto repressivo. Eu estava mesmo farta de tanta consciência.
E, como quem não tem amanhã, me desarmei pra você. Passei a acreditar no sonho que eu criei. Não quis enxergar a diferença entre a ilusão que passou a alimentar minha alegria e o que era real.
Em tão pouco tempo, fiz planos, criei histórias. Desejei coisas que só mesmo um casal poderia. E fui me tornando cada dia mais ridícula e tola, perdendo o controle sobre meus próprios atos. Tudo porque eu quis amar você. Porque vi em você esse alguém que me acompanharia. Vi em você esse alguém capaz de me compreender e de, ao mesmo tempo, me fazer sorrir.
O belo, o bom, o leve, o livre, o puro, o positivo, o inteligente, o amável, o feliz. Só vi isso em você. E, ingenuamente, acreditei: é isso também o que ele verá em mim! Sim! Eu estava diante de alguém com quem eu iria compartilhar tudo o de melhor que carrego comigo.
...
Como é fácil se enganar.
Hoje, posso até dizer que eu mesma me traí. Assim eu quis. Mas mentiria se dissesse que poderia fazer diferente. Não, eu não poderia. Você tirou minha calma, você roubou de mim qualquer chance de articular estratégias pra te ganhar definitivamente, quem sabe um dia. ... Ou talvez não. Talvez essa calma já não estivesse em mim há um tempo. Talvez o meu estado de impaciência já tivesse me dominado muito antes da sua chegada. Talvez você tenha sido apenas o estopim. Não sei.
A verdade é que agora ... estou conhecendo, enfim, o que é ter que retrair meus atos. O forte sentimento ainda mora aqui dentro – indesejavelmente, devo dizer. Mas qualquer coisa que eu faça, a essa altura, apenas vai piorar a idéia que você tem de mim. E eu realmente não sei o que é que você pensa. Imagino que eu deva ter te cansado; que pra você eu seja uma carente ou coisa do tipo. E sei que tentar me explicar, agora, já não faria o menor sentido.
É tudo tão absurdo que chega a passar pela minha cabeça que eu deva pedir desculpas pela minha intensidade. Mas isso seria ainda mais sem sentido. Eu não posso me sentir culpada por sentir nada. Aconteceu! E pode ser que essa sua repulsa nada tenha a ver com meus atos, com a minha louca vontade de te ver, de estar e falar com você. Não sei. Te tratei como se você fosse meu namorado, é verdade, mas... se você estivesse na mesma sintonia, esse meu jeito de viver as coisas jamais teria sido um problema.
Lamentar, lamentar... É triste ver que isso é tudo o que me resta fazer. Ah, como eu não desejei nada disso. Por que tem que ser assim? ... Eu só não queria que o tempo passasse com você tão longe e ausente. E é justo o que recebo como prêmio final.
Por que é visto como algo tão absurdo eu ter me apaixonado insanamente por você? ... Por quê?? ... Me contentar com a felicidade que tive e com o amor que brevemente vivi. É o que de mais certo eu devo fazer.
...
Mas que vida besta é essa!
Escrito por Paula Biza às 12h06
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