REVELAÇÕES DO BAÚ
Fotos, declarações e lembranças no meu mural. É bom tê-lo por perto, mas é triste vê-lo tão de perto. Nem tanto pelos sorrisos que não mais estão aqui, nem mesmo pela linda juventude que se esvai. São as marcas, são as manchas - é o tempo.
Sempre que me deparo com a deteriorização de cada semblante feliz, considero a possibilidade de enquadrar todas essas memórias. Sob uma proteção de vidro, eu poderia ao menos protegê-las da ação da poeira que invariavelmente se acumula e dos respingos d’água vindos certamente do meu chacoalhar de cabelos pós-banho. Mas anda difícil executar algumas idéias.
O meu baú de fotos, por exemplo, está intacto e completamente desordenado, desde o dia que mudei pra nova casa. Dentro dele, a bagunça só se multiplica, pois os álbuns estão desleixadamente virados do avesso, quase todos sem data ou tema dos acontecimentos clicados... Sem contar a enorme quantidade de fotografias soltas, espalhadas pelo tal baú.
E, como sempre acontece em baús de toda a espécie, existem lá dentro seres que não lhe pertencem, que nada têm a ver com o tema “baú de fotografias”. Canetas, souvenires, uma ou outra revista e, para o meu desespero, até mesmo alguns documentos. Coisa que eu fui jogando lá dentro, na ânsia de ver o quarto minimamente habitável.
Claro que esse baú também não retrata com tanta veemência a balbúrdia que estou detalhando. Mas eu não me comprometo pelo que pode ou não estar dentro dele. Se me perguntarem, a resposta é única e rápida: fotos. Mais do que isso eu não posso precisar.
De verdade, nada disso me angustia. Acontece que o que realmente me tira o sono são os negativos. Sobre eles sim eu não tenho o menor controle. Eu sempre os reneguei.
Ia até a loja de revelação, dava uma breve olhadela na qualidade geral das fotografias, enfiava tudo na sacola, pagava e saía correndo pra onde quer que eu pudesse parar pra sentar e organizar as fotos no álbum. Negativos?? Nem olhava pra eles. Em casa, jogava eles num canto específico para coisas sem importância e simplesmente esquecia que eles existiam.
Tudo bem, houve um breve período em que eu até me dispus a nomeá-los, ordená-los e tudo o que uma porção de negativos pode querer nessa vida. Mas esse processo todo jamais voltou a ser repetido. O que foi um erro. E dos grandes. Talvez hoje, infelizmente, seja tarde reconhecer.
É difícil conviver com fotos manchadas no meu mural, sem saber se existe a possibilidade de, um dia, recuperar todo seu vigor cromático. Onde andarão os meus negativos?? ... É preciso coragem para parar de questionar o além e indagar, enfim, o baú de fotografias.
Escrito por Paula Biza às 00h21
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PEDIDO DE AMIZADE
... durante um jantar de uma quinta-feira:
- sabe, cheguei a uma conclusão... quero muito ser sua amiga.
- ãh?
- é, exatamente isso!
- tá... acho que entendi...
- amiga... amiga mesmo.
- bom... eu também quero! gosto muito de você!
- eu também!
- figura...
- acho que a gente pode se dar melhor como amigos.
- concordo... namorar a gente não ia mesmo...
- não.
- você acha melhor deixar o colorido de lado?
- acho.
- você tem razão.
- acho que não rola química... como você pode ter percebido.
- verdade.
- mas, ao contrário das pessoas que descobrem isso e nunca mais se encontram, acho que a gente tem tudo pra ser amigos... quero te contar minhas coisas...
- quando foi que você descobriu isso?
- outro dia... acho que segunda.
- você é engraçada!
- agora já posso te convidar pra ir no cinema sem que você ache que quero dar uns beijos...
- só não entendo por que nossa amizade começou desse jeito.
- ah, porque somos diferentes... dos outros... e iguais entre nós.
- será?
- é uma hipótese...
- a gente simplesmente não precisava ter saído junto.
- como assim?
- você já beijou todos os seus amigos na boca?
- já!!! ...
- ah... sou apenas mais um...
- besta!
Escrito por Paula Biza às 21h06
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