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comme d´habitude
 


MEDO DE TER MEDO

Enquanto folheava a revista semanal que acabara de ser entregue pelo porteiro, Marcela dava algumas colheradas no seu cereal matinal encharcado em iogurte light. Não, ela não estava de regime (por sorte, genética ou bons hábitos de vida, ela nunca havia se metido numa dieta), apenas cultivava o costume familiar de dar preferência a comidas mais leves.

 

Enquanto as seguidas notas e reportagens lhe ilustravam a vista, Marcela tinha um só pensamento: ela queria ter mais coragem. Claro que havia um assunto específico em sua mente, mas, para ela, a falta de ímpeto e determinação vinha acometendo inúmeras faces da sua vida.

 

Ela queria ter mais vontade de levantar da cama nas segundas-feiras de inverno, e escolher a sua melhor roupa para ir trabalhar; ela queria ler três jornais de cabo-a-rabo antes mesmo de sair de casa, para não perder nenhuma informação importante; ela queria acreditar nos seus talentos para, enfim, declarar seus reais desejos profissionais e ir à luta; ela queria encarar o espelho todas as manhãs e assumir pra si mesma: você é linda!, para, então, quebrar a barreira da insegurança quando estivesse diante do seu grande amor.

 

Ela queria desconhecer a palavra medo. E revelar, enfim, o significado da locução “força de vontade”.

 

Mas não via meios. Ela buscava alguém em quem se espelhar, mas quando não via fracassos, acabava diante de velhos cansados, desgastados pelo trabalho e frustrados com resultados tão amenos. Ela via sonhos diluídos em conquistas do acaso, em oportunidades cretinas e interesses maquiados, e não em autênticas escolhas. Ela esperava por algum incentivo, mas recordava estar sozinha e sabia que suas atitudes não interessavam, de fato, a ninguém.

 

Sim, ela era jovem, dona de alguma beleza e simpatia, e uma inteligência mediana, mas nada disso era suficiente. Em poucos anos, sua juventude seria roubada, o rancor tomaria o lugar de qualquer postura carismática e sua parca beleza daria lugar aos sinais do tempo. Daí então, Marcela não teria mesmo mais nenhum lugar para cultivar seus sonhos. Eles estariam todos presos ao passado, sem forças para retornar aos dias atuais. Distantes, eles poderiam ser apenas observados como a recordação de um tempo que passou e não fora devidamente aproveitado.

 

Marcela não queria isso. Ela tinha mais medo do arrependimento futuro que das iniciativas incertas que ela viesse a tomar no presente. E num ímpeto de bravura, fechou a revista, largando-a sobre a mesa da cozinha, ao lado do pote de cereal. Era pouco mais de dez da manhã. Era domingo. E ali, diante de todos aqueles azulejos brancos, nascia uma nova mulher. Depois de 24 anos, nascia uma mulher.

Escrito por Paula Biza às 18h02
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