HORA, HORA, HORAS
Quando a gente não tem tempo, a melhor coisa é desconsiderar o tempo. Então, você nunca vai estar atrasado; nunca vai ser tarde ou cedo demais pra qualquer coisa; correr enlouquecidamente vai ser sempre por esporte – e você nunca vai se culpar por nada disso.
Estar sem tempo também pode ser uma grande e fajuta desculpa. Oras! Pra fazer aquilo que você realmente quer, você sempre encontra tempo! Que sejam cinco minutinhos gastos. Mas você encontra. Aliás, todo mundo sempre tem cinco minutinhos... a todo momento! Mas, não tem jeito, tem gente que insiste em me contrariar nesse ponto.
Mas também tem gente que taí pra me mostrar que aquele bordão “tem hora pra tudo” é mesmo uma grande besteira. Tá, não é à toa que milhões de pessoas já cantaram aquele verso infernal do “quem sabe faz a hora, não espera acontecer” ... Mas não é bem disso que eu tô falando. É que certas horas nos parecem impertinentes para certas “atividades”, digamos assim. E, cada vez mais, vejo que as horas são as convenções que mais nos aprisionam. E não pode ser dessa forma. Não aqui no meu mundo.
Talvez a grande dificuldade seja entrar em acordo com o resto, com o outro, com quem interessa. Porque, como eu bem sei, a hora é a mesma pra todos – mudando, às vezes, apenas o fuso -, mas nem todos querem a mesma coisa na mesma hora. Aí começa o problema. Aí começam as concessões, as súplicas, as chantagens e, conseqüentemente, as vinganças. Tudo por conta de um maldito relógio, esse que a gente não carrega no pulso, mas carrega dentro da gente, em algum lugar ainda não exatamente definido.
Pô, tem horas que a gente não quer mesmo fazer nada. Mas, sempre tive essa sensação, fazer nada incomoda os outros. Parece inaceitável, aos olhos de quem vê, alguém que tenha decidido apenas fazer nada – mesmo que seja só por um momento. A gente tem que sempre estar fazendo alguma coisa e, pior, dar satisfação disso (seja para mãe, irmão, namorado e, quase sempre, pra gente mesmo).
O mais irônico é que, talvez, no dia em que ninguém nos cobrar nada, que o nada for a nossa rotina, e as horas de nada importarem, nesse dia, estaremos exaustos já. Injuriados, vamos difamar aqueles que não nos cobraram um tempo, que não agendaram um horário, que não requisitaram nem um minuto da gente. Apenas deixaram o tempo correr. E ele voou.
Escrito por Paula Biza às 10h46
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