TANTO PRA TÃO POUCO
Uma coisa é certa: existe hora pra se tomar vergonha na cara! Deus do céu! Como têm coisas nessa vida que a gente custa em aprender!
Marina era uma dessas. Vivia perambulando pela cidade, sem eira nem beira, como se não desse realmente valor a nada nem ninguém que estivesse além dos limites família-melhores amigos-trabalho-faculdade. Isso era todo o seu mundo. Simplesmente lhe bastava, e ela achava (sim, apenas achava) que era feliz dessa maneira. Tinha lá o seu dinheirinho, comprava suas besteirinhas, fazia as suas baladinhas, assistia aos seus poucos filmezinhos. E estava bom demais.
Os pais eram indiferentes, embora fossem amáveis com ela. Aceitavam tudo o que a filha escolhesse fazer; não palpitavam – o que mais a incomodava do que provocava um sentimento de liberdade. Aliás, liberdade era uma palavra que ela adorava – embora admitisse não entender bem o seu conceito. Não sabia usufruir daquilo que achava possuir. E seguia presa a tudo o que acreditava lhe oferecer segurança. Exatamente tudo.
E foi por um motivo assim que Marina plantou o seu primeiro grande fracasso amoroso. Tinha a garota algo perto dos seus 20 anos de idade, quando conheceu Henrique em uma festa; assim, por acaso. Marina comemorava seu primeiro pedido de demissão.
(Em mais um desses seus falsos gritos de liberdade, ela resolveu pular fora. Era o seu segundo estágio. Trabalho na área, pagava-se bem... Mas ela não gostava do que fazia e – dizia com os nervos à flor da pele – tinha uma chefe com distúrbio bipolar. Um inferno! Numa quarta-feira de final de janeiro, passou pelo escritório só pra pegar suas coisas e picar a mula. Saiu carregando uma certa culpa, mas soube transformar esse sentimento em raiva. “Não toque no nome daquela louca! Me dá ânsia!” – avisava aos amigos. Por sorte, mesmo quando entrava nos pormenores, não chegava a regurgitar em ninguém.)
Veio a tal sexta-feira. Noite quente de verão, e ela sentia a vida vibrar de felicidade em cada centímetro do seu corpo jovem. Não existiam cobranças, nem chefes perturbadores, nem ambiente empresarial de merda. Ela tinha tido a coragem de dar um basta – e sentia-se poderosa por isso. Tal sentimento foi elevado à décima potência quanto a menina meteu-se numa mini-saia branca. E, como a noite pedia algo mais, ela calçou sua plataforma caramelo (que deixava suas belas pernas morenas ainda mais bem torneadas) e colocou a primeira blusinha preta que lhe apareceu pela frente. Tomou uma chuveirada e esperou a carona de uma amiga. No caminho pra gran balada (ainda sem destino certo), Marina tagarelou sem parar, aproveitando as paradas no farol para retocar o gloss no retrovisor de um corsa prata. “Eu quero pirar nessa balada”, confidenciou ao manobrista, na entrada da festa.
Marina não gostava de beber nada que fosse alcoólico. Torrou a consumação em suco de laranja e uma garrafinha d’água. Pela primeira vez, sentiu cheiro de maconha dentro de um bar. Ficou surpresa; estranhou. Comentou com as amigas e continuou a tagarelar. Era visível: Marina estava extasiada (sem fazer uso de uma droga sequer, que fique claro!). O riso e a conversa rolavam soltos, quando um inesperado forró despertou-lhe uma vontade incontrolável de correr pra pista. Arrastou uma das amigas consigo e tratou de escolher um par. Foi quando, sem ter a menor consciência desse gesto, Marina pegou o grande amor da sua vida pelo braço e perguntou: “Vamo dançá?” ...
Ela jamais poderia imaginar. Nem ele. Nem ninguém ali ao redor. A todo momento, pessoas se convidam pra dançar, e dançam. Outras se recusam, a princípio, e acabam convencidas. Ou apenas conversam, sem se conhecer, e se encantam. Se não, se olham, e sentem, e seguem, e somem. Tudo acontece o tempo todo; e a gente nunca sabe onde é que vai chegar. Se é que chega.
O fato é que Marina convidou, convenceu, dançou, conversou; e se encantou, beijou, se apaixonou, se entregou; e cresceu, enlouqueceu, sentiu, desejou; e teve medo; e teve amor. E, ainda assim, ela não acreditou em nada disso. E perdeu.
...
“Mas acaba assim?”
...
Realmente, histórias sem conclusão perdem toda a sua beleza. Desejo passivo não nos leva a lugar nenhum; tampouco manda buscar quem ou aquilo que amamos.
Escrito por Paula Biza às 00h58
[]
[envie esta mensagem]

|