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comme d´habitude
 


VIVER É ESCOLHER

Não comprei a estante. E antes que você me pergunte “por que”, logo lhe digo: acho que não era a hora. "Não adianta mesmo fazer planos" – foi o que me ocupou o pensamento na noite anterior, naqueles densos instantes que antecedem o sono. Pois, quando não é pra ser e a gente quer que seja, algo mais forte vem e nos impede. Hoje, no meu caso, esse algo não era exatamente mais forte (graças a Deus!). Mas, ainda assim, me fez parar brutalmente.

 

Minha idéia era ir cedo à loja. Mas, pela minha responsabilidade com relação ao trabalho, preferi parar no cyber antes. Fiquei conversando com os amigos além do tempo que imaginava. Já era hora do almoço. À mesa, ao lado de velhos e novos conhecidos, versávamos amenidades quando alguém notou: “que lindo seu colar!” – era a primeira vez que eu usava. Trevo de quatro folhas, figa, pé-de-coelho, pimenta, olho grego... Com tanto penduricalho, minha esperança era ter mais sorte – não tive. Mais proteção? ... Acho que aí sim.

 

Na agenda, anotações feitas ontem lembravam o que deveria ser feito hoje. Enviar e-mail p/ Cacá, fazer lição de inglês, ligar p/ vó, tia Amália, Flavinha, Alexandra, Pedro, Pri, Carol, Lelê, Carine e, claro, comprar a estante. Sem esquecer tarefas extraordinárias como colocar o lixo pra fora e fazer compras de supermercado. Tudo bem... Eu ainda tinha a tarde toda.

 

Antes de sair de casa, ainda tentei organizar melhor todos os papéis, pastas de documentos, livros, álbuns de fotografia, porta-retratos, cd’s, canetas e pequenos enfeites que se amontoavam num canto da sala. Todos à espera da tal estante. Não tínhamos dúvidas de que ela viria. (...) Não veio. Já no carro, eu aumentava o volume do som, pra que a voz da Mônica se sobrepusesse à minha. “Se não tivesse o amor? Se não tivesse essa dor?” ...

 

Eu pensava em tudo: no amor que deixei, no sofrimento que ele causou, no aprendizado que ele trouxe, nas dores de quem amo, nas dores daqueles que amam, na necessidade disso tudo. Foi quando o farol ficou amarelo – e eu decidi cruzar a avenida. Foi quando observei a Pajero parar – e a moto se aproximar. Foi quando buzinei (pra quê?? pra quê??) e sentei o pé no breque – jogando o carro pra esquerda. Foi quando vi o motoqueiro se enfiar na lateral direita do meu carro (putaquepariu!) – e eu já não via mais nada.

 

Eu estava bem. Irritada, nervosa, tensa, puta da vida. Mas bem. Puxei o freio de mão, desengatei a marcha e ainda desliguei o carro. No asfalto, caído sob a moto, o cara parecia pouco ferido – ou quase nada. De mini-saia, agachei mesmo assim, pra falar com ele. Perguntei se tinha alguma dor, e ele disse que não. Nem percebi quando a CET se aproximou. Começava, então, um longo, chato e demorado processo burocrático. Apesar do estrago nas duas portas da direita, eu estava tranqüila. Nada acontecera comigo. E o motoqueiro estava mais é assustado. “Foi uma pequena lesão na mão” – informou, depois, um bombeiro.

 

“Até quando eu vou ter que ficar aqui?” – questionava a minha ansiedade. Ela precisava saber se ainda hoje eu conseguiria comprar minha estante. “Iiihhh... vai longe”, exclamou um desses ágeis policiais militares. Duas horas depois, eu estava na delegacia, onde ainda teria que esperar outras duas ou três horas pra poder fazer o boletim de ocorrência.

 

Quanto tempo... Quanta pressa... Definitivamente, eu quero uma cidade sem cruzamentos.



Escrito por Paula Biza às 15h16
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