AS VOLTAS - E O TEMPO QUE ELAS PRECISAM PARA GIRAR
Não vou mais falar sobre as voltas que o mundo dá. Quisera ele não girasse tão depressa. Quisera ele soubesse exatamente pra onde nos conduzir. Quisera nós pudéssemos escolher sempre o caminho. Não, não é assim.
Os riscos estão o tempo todo do nosso lado. O acaso também. E a gente nunca sabe quando um vai se encantar pelo outro. A gente prefere não saber. Uma união que, em uma sexta-feira à noite, pode gerar boas surpresas e satisfação também pode causar, em uma madrugada de domingo, um terrível acidente. Assim foi, assim aconteceu.
Na noite anterior, eu havia sonhado com uma delas. Quando acordei e abri o jornal, pensei que fosse apenas um bom pressentimento. A garota vem fazendo sucesso, falei pra mim mesma. O dia seguiu bem, apesar da chuva torrencial que me perseguiu. Cheguei, enfim, à casa de outra grande amiga, onde todos estavam felizes e amorosos, como sempre.
Dormimos por lá. Já não chovia mais, mas preferi não pegar estrada à noite. Em família, entre amigos, passamos horas contando histórias, revelando segredos, chorando desamores. Tudo nos fez bem. Mas certamente a boa companhia foi a grande responsável por sorrisos soltos, despreocupados... e lindos.
O sol já ardia quando acordamos, no dia seguinte. Não tínhamos pressa, não sabíamos as horas. Apenas nos levantamos, seguindo as mais puras vontades do corpo. Mais uma vez, comemos bem e, mais tarde, fomos para a piscina. Aí então, vimo-nos reunidos novamente. Pai, mãe, filha, namorado e amigas. Todos orgulhosos.
A festa tinha sido maravilhosa. A razão da festa nos era motivo de alegria; sempre. Vieram, então, mais histórias do acaso, do destino, da vontade, da conquista, do sonho e da satisfação. Nesse momento, o dia ficou ainda mais bonito.
Antes do almoço, oramos. Como não fazia há tempos, mentalizei aquelas palavras e senti toda a verdade de suas intenções. Na borda da piscina, com o corpo dentro d’água e as pernas para fora, contemplei o imenso céu azul. E agradeci. Eu estava ao lado de pessoas queridas, amadas, boas de coração. Eu estava protegida, bem recebida, amparada. Eu estava consciente. Não existiam riscos.
Depois da farta e deliciosa refeição, ainda deitei na rede, sob o sol, sob a desculpa de uma boa leitura. Em minutos, as letras foram se apagando, as vozes que vinham da sala foram ficando cada vez mais distantes... adormeci. E, felizmente, na hora certa, acordei. Era hora de partir.
"Não corro mais porque não quero" – justifiquei. "É uma boa razão", disse o pai. Nesse caso, prefiro não errar pra ter que aprender. Já na estrada, andei abaixo do limite. Não me irritei com os apressadinhos. Não quis mostrar, afinal, quem é que pode mais. Porque isso ninguém precisa saber - se é que realmente posso mais. Sim, é um esforço não se deixar contaminar pela fúria do trânsito. Mas, hoje sei mais ainda, é preciso. É vital.
Hoje cedo, concentrada em meu trabalho, recebi o telefonema e o e-mail estarrecedores. Claro que não pude acreditar. Minha amada amiga, tão forte, tão querida. Um cruzamento, um irresponsável, um farol vermelho desrespeitado. Como somos vulneráveis, Deus! Só peço que mantenha nela sua força. É tudo o que precisamos.
Escrito por Paula Biza às 23h44
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