O QUE É FIXO EM MIM
Eu sou a pessoa. Assim como ele, assim como ela. Se conheço a mim, também posso conhecer quem quer que seja. E, por isso, eu sei. Eu sempre acho que sei. Como quando eu soube o por que do retardar do teu passo. Tão óbvio, tão pouco discreto; surpreendente por ser tão previsível.
Era eu, mas poderia ser qualquer outra perna, qualquer outra saia, outros óculos escuros. Poderia ser também outro jeito, outro charme. Mas não; era o meu; era eu.
Eu sabia que seria dia de ouvir elogios. O ar de autoconfiança chama ainda mais atenção. Subindo a escadaria, eu vinha logo atrás de ti. Mas, por andar depressa demais, te alcancei no exato ponto em que mudamos de sentido. Aí, então, a sua visão periférica capturou a minha imagem, talvez ainda como um vulto. Você não poderia ter sido mais caricato. Nem pensou que outros poderiam estar te observando; te julgando como patético, tarado, descarado – homem.
A sua pausa desnecessária me deixou ainda mais envaidecida. Subitamente, você encontrou uma razão para se apoiar na parede, como quem sofre com uma tontura breve. Continuei a subir, apenas atenta para não tropeçar naquele momento... Não havia mais nada com que se preocupar. Estava tudo no seu devido lugar.
Ah, como eu queria ter um espelho retrovisor acoplado em mim... Qual seria a cara dele?? Onde seus olhos estariam fixos?? Será que estiveram mesmo fixos em algum lugar?? ... Ah, que tola eu... patética, orgulhosa ... ai, mulher.
Longe, agora, posso pensar no que me faz sorrir – e não é ele, nem ela. O que me deixa assim são outros sorrisos, outras bocas; outros olhares, outros olhos que sabem como ficar fixos. Só me deixa mesmo assim o que vem com intensidade. Tal qual certas palavras, registradas na celulose do que é meu. Demoram a vir, são breves a ficar, mas permanecem por todo canto. Porque aqui se identificam; aqui, encontram seus iguais.
Escrito por Paula Biza às 13h40
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