FIGURINHAS, CARTAS, CADERNOS E OUTRAS PAPELADAS
Eu brincava sentada no chão do quarto, quando meu pai abriu a porta. Ele tinha acabado de chegar do trabalho, como eu tinha acabado de constatar pela janela. Do alto do sexto andar, reconhecera o barulho do seu Escort cinza metálico e fui logo espionar. Larguei tudo, apaguei a luz do quarto e corri até os furinhos da persiana de alumínio (eu nunca abria a janela quando não queria ser notada, pois era impossível não fazer um barulho estrondoso). Minha mãe estava do seu lado, como sempre acontecia. Pareciam quietos. Acho que, naquele momento, não conversavam sobre nada.
Ah, sim, mas por que apagar a luz? Claro, foram anos bancando a espiã, meu amigo. E quem espia sabe muito bem que corre o risco de ser espiado a qualquer momento. Eu já tinha notado que, com as luzes acesas, ficava nítido pra quem estivesse lá embaixo que havia alguém espiando pelos furinhos da persiana. Ok, isso pode ser absurdamente óbvio hoje pra qualquer um de nós. Mas, dentro da cabeça de uma menina de dez anos, isso é praticamente um segredo de guerra. Ah, como eu era esperta!
Continuei espiando. Eu adorava aquela sensação de ver sem estar sendo vista. Eu queria constatar que tudo estava dentro da normalidade. Tudo ocorreria conforme o esperado. Primeiro era o ronco do motor. Depois, meu pai imbicaria o carro diante do segundo portão da garagem (já que o primeiro só era trancado depois das 22h); aí viria o “pan-pan” – dois toques na buzina, precavendo-se diante de um possível cochilo do porteiro. Uma breve espera... e lá viria o Seu Clemente, que desceria até a garagem pelas escadas de dentro do prédio, para abrir o portão. Depois de encontrada a chave certa, o chão chegaria a tremer quando ele empurrasse aquele imenso portão verde (que também já tinha sido preto, cinza e até laranja).
A partir daí, eu concentrava minha audição na parte interna do prédio: o barulho do elevador dava o sinal: ou eles já estavam subindo, ou o elevador ainda estava descendo para pegá-los na garagem. O que importava é que em poucos segundos eles estariam no hall, quando, então, abririam a porta de casa. A essa altura, eu já teria acendido a luz do meu quarto novamente, retomando a brincadeira que fosse, de modo a parecer entretida há horas.
Fiz uma cara de quem não esperava pela sua chegada. Ele sorriu, disse um “oi” mais arrastado, me deu um beijo na testa e me entregou um álbum de figurinhas enorme (o negócio era quase da minha altura!). Eu, que pretendia apenas fingir, acabei ficando realmente surpresa. Não era exatamente o que eu queria, mas eu acabei gostando muito do presente. Enquanto todas as minhas amigas completavam álbuns dos Ursinhos Carinhosos, entre outros fofinhos e fofinhas da época, eu me divertia com as figurinhas dos Simpsons, sem ter com quem trocar. “Coisas que meu pai traz lá de Pinheiros...”, explicava para as mais chatas. As repetidas eu colava na porta do quarto, no armário, nos cadernos, na lancheira. Gostei tanto desses personagens que, no ano seguinte, eles até viraram “tema” da minha festa de aniversário.
Teve uma época que eu queria ser como a filha (era Mag? ou era Marjorie??). Depois, eu quis ser como o Bart. Mas nunca aprendi a andar de skate, nem nunca ousei chegar perto de um sax. Acho que acabei ficando com um pouco do humor sarcástico de um e um tanto de ponderação da outra.
Penso apenas no que eu gostaria de ser se tivesse colecionado figurinhas da Barbie ou do Amar É. Bem, deixa pra lá.
Escrito por Paula Biza às 00h47
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