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ESTAGNADA...



Escrito por Paula Biza às 01h28
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Na contra-capa

“Bem complicado isso pra mim”, dizia, em pensamento. Ela, esse ser carnal, afetuoso, amante do contato explícito e constante, teria de conviver com a distância que a incomodava, que a deixava deprimida. Sentada em sua mesa de trabalho, de fronte à parede envidraçada, Carolina fingia observar o cair da tarde. Era terça-feira. Os carros passavam incessantemente, ocupando todas as vias. O traço vermelho formado pelo viaduto que passava sobre o rio Tietê era a única coisa que lhe prendia o olhar.

Como sempre acontecia naquele horário, o escritório estava silencioso de vozes. Ouvia-se apenas o digitar de teclas, o virar de folhas, o abrir e fechar de gavetas, o mexer de cadeiras. Nada disso, porém, roubava a concentração dela. Sem querer estar ali, a jovem mulher insistia: “Quero distância da distância de todo mundo que eu quero bem.” ... Não bastou desejar.

Sabe aquele tipo que costuma gostar das pessoas assim, sem razão? Gente que se apaixona por quem se aproxima despretensiosamente, aparentemente... sabe? Ela era desse tipo. E assumia viver encantada por sorrisos espertos, olhares de lado... Não tinha jeito. Carolina também gostava do simular tímido, da falsa simplicidade. E dizia pra si mesma: “É, é assim que eu sou”, tentando manter-se na luta pelo grande amor.

Um motivo pra sonhar. Era disso que ela gostava de verdade. Saber possuir uma inspiração. Um alguém para quem, mesmo longe, ela possa revelar sua alma de poeta. (...) A noite caiu, os carros acenderam seus faróis, o tráfego ficara ainda mais lento e intenso. E ali estava ela, no mesmo lugar, escrevendo tais pensamentos na contra-capa de um caderno qualquer.



Escrito por Paula Biza às 20h46
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