As cores que não vemos – e todas as outras também.
Não há esperança; há vida.
Não há sorte; há vida.
Não há amor; há vida.
Não há desunião; há vida.
Não há alegria; há vida.
Não há acaso; há vida.
Não há vontade; há vida.
Por isso, acordei tarde. Na cama, virei de um lado pro outro para encontrar meu celular. 11:43. Eu tinha um almoço marcado. Tentei fazer tudo da forma mais rápida que pude. Ainda assim, cheguei tarde. Elas já estavam petiscando e tomando cerveja. Duas Jus, uma Na e eu. Quatro mulheres, quatro meninas, quatro corações partidos – cada um a sua maneira.
No ar, música, fumaça, algumas boas risadas e conversas nada propícias para um domingo ensolarado e quente. Nenhum compromisso. Aos poucos, aos goles, aos tragos, fomos apresentando parte do nosso universo desconhecido. A essa altura, o prato surpresa já havia sido deliciosamente devorado... Parecia mais fácil falar de barriga cheia.
Uma dormiu. Éramos três, quando vozes e violão entraram em cena. “Eu cuidarei do seu jantar, do céu e do mar, e de você e de mim.” Eu quis, mas não consegui desenhar nenhuma imagem em minha cabeça. Não naquele momento.
Ponteiro menor quase no sete; ponteiro maior já passava do cinco. Pregado na parede, o relógio avisava que era hora de ir embora. Recolhi alguns pratos, recolheram alguns copos. Uma foi lavando a louça, a outra foi arrastando a mesa de volta para o seu lugar. Já com a bolsa pendurada no ombro, eu ainda lembrei de deixar um recado na parede. Descemos.
Quanta transformação. E minhas perguntas ficaram sem resposta. Será que uma tarde poderia abarcar tamanha mudança? Talvez uma tarde apenas fosse pouco... Mas, certamente, uma tarde e uma noite e uma manhã e mais outra tarde conseguissem mudar o belo, arrancar o dourado, desvairar o organizado, poluir o atraente. Para que, assim, então, pudéssemos conhecer o poder do estranho, o brilho do opaco, o rumo do desnorteado, o encanto do desinteressante.
Assim, aconteceu. Assim, anoiteceu.
Escrito por Paula Biza às 13h27
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