Ele, de novo.
... E foi quando, sem querer, eu olhei pela janela. A noite estava iluminada, o ar limpo, as ruas silenciosas. O temporal, que devastara a cidade, costumava compor quadros como esse ao afastar-se de nós. E eu costumava me encantar com esse cenário. Mas, ... hoje não. Deslumbrei-me, e desviei o olhar. Fechei a janela; estava inquieta.
Acontece que ele estava de volta. Não sei exatamente como, nem por quê, mas estava. E, novamente, eu me sentia presa, confusa, contraditória... uma estúpida. Estava tudo errado. De novo.
Eu não sabia bem pra onde ir. Tive vontade de escrever, mas... não queria que ninguém lesse. Pensei que melhor mesmo, talvez, fosse dormir, numa tentativa covarde de tudo esquecer. Não... o sono não viria. Sentei-me na cama arrumada. Olhei pra chave do carro, em cima do livro que ele me emprestara há mais de um ano. Saí.
Abri a porta, sentei no banco, virei a chave... eu sempre me lembrava dele: “Espere alguns segundos para que a parte elétrica seja acionada”. Ah, esse metódico contagiante! ... Peguei o controle, abri o portão... pisei fundo na embreagem; soltei o freio-de-mão. Acelerei, devagar. Dei aquelas duas buzinadinhas, para que o porteiro abrisse o portão da frente. Liguei o rádio, baixei os pinos; abri o vidro... só um pouco. Desci a rua, sem rumo.
Sintonia péssima. “Pra que ter um rádio tão jurássico no carro?!!” – disse ele, certa vez. Pois nem assim consegui me livrar dos vândalos dessa cidade. O vidro do passageiro já tinha sido reposto, mas estava sem insulfilm. Alguns caquinhos do antigo vidro estilhaçado ainda estavam por ali... no chão, no banco... no apagador de cigarros. O carro ainda estava com um cheiro de gato molhado... Nesse sentido, eu andava mesmo sem nenhuma sorte.
Voltei ao dial. Na rádio dos melhores ouvintes, tocava alguma música que eu adoro. Embora minha memória imprecisa não ajude, sei que aquela melodia trazia-me algumas boas lembranças... Tentei sintonizar com um pouco mais de paciência. Três quarteirões depois, rendi-me às paleozóicas fitinhas K-7. “Give me love, give me love, give me peace on heart” – repetitiva, mas eu gosto (e não tinha chiadeira).
Por alguns instantes, senti-me feliz. Eu tinha meu carro, tinha música, tinha o vento no rosto, tinha velocidade... era tudo tão suficientemente agradável. Naquele instante, eu não sentia a falta de ninguém; nem mesmo de um destino.
Até hoje, não me lembro exatamente onde fui parar naquela noite. Mas tenho absoluta certeza de que voltei diferente. Eu já não tinha aquela preocupação irritante na cabeça. Eu apenas tinha decidido me desculpar. De madrugada, já deitada em minha cama, escrevi uma mensagem pra ele. Não mandei; não queria roubar seu sono. Esperei o máximo que pude, para que o dia amanhecesse, e eu enfim enviasse meu pedido de desculpas. Acabei pegando no sono.
“Alô! Te acordei?” – que pergunta mais óbvia! Ou será que ele pensa que eu realmente tenho essa voz de drag queen?? ... Sim, ele não deveria ter brigado comigo. Sim, eu não deveria ter mentido pra ele. Então, fiquemos assim: ambos perdoados; mais uma vez.
Escrito por Paula Biza às 20h07
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Simples é morrer.
Não é fácil dizer adeus. É tanto a ir embora. É tanto querendo ficar, quando nós é que devemos partir. Mas todos hão de concordar que o melhor foi feito. Porque, nesse momento, quando o pior já havia se estabelecido, a radical mudança de rumo haveria de ser a melhor escolha. Então, eu decidi. Só assim ficou evidente que eu apenas queria seguir a minha natureza... embora lutasse contra ela. Em vão.
Ah, como é bom ter a tranqüilidade de estar em seu devido lugar. Como é bom permanecer quieta, sozinha, contemplando a presença da escuridão em pleno dia. Sendo vista ou não, é como seu eu não mais estivesse aqui... nem ali... nem em nenhum lugar. Sou apenas meu pensamento; estou nos lugares por onde ele viaja. Só.
Vejo-me em meu corpo. Serão meus esses olhos? Será minha essa pele? Será meu tudo o que sinto? Ou será outro que em mim vive, e apenas usa o que aparento para me convencer de que eu sou ele? “Não, eu não sou o que vejo”, diz essa sua voz cruelmente sincera. E é ela a quem eu não posso enganar. Ela me conhece... ela sempre sabe o que eu estou planejando. Ela entende muito bem esses sentimentos todos que insistem em me confundir. Mas ela não me explica. Apenas diz o óbvio. (...) Acho que ela quer me ver assim, perplexa. Intrigas.
Dela não posso me despedir. Mas, para todo o resto, digo adeus. Espero não mais reencontrá-los. Foi bom ver o que vi; gostei de sentir o que senti; não faria de novo o que fiz; bom saber que existe o que existe; mas, obrigada, não quero o que quero. Acabou.
Escrito por Paula Biza às 01h20
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