Onde nasce o amor.
Inquietação em demasia. Mas não saio do lugar. Penso nos meus amigos, nos meus primos, nessa gente que eu nunca mais encontrei. Penso no tempo que não cansa de correr, deixando distante mesmo o que é bom, trazendo consigo até o que é ruim. Pra que essa pressa, pergunto eu. No final, abriremos o sorriso, eu sei; afinal, não nos restará alternativa. Teremos vivido, apenas, e isso nos bastará.
E foi pairando na imensidão dos meus pensamentos incessantes, que recebi esse “eu te amo” no meio da tarde. Quis responder na mesma hora, retribuir dizendo as mesmas palavras, mas não consegui. Fiquei surpresa, simplesmente. Se, um dia, eu fosse questionada sobre isso, até poderia considerar possível esse sentimento vindo dela. Desconfio já tê-la ouvido dizer algo semelhante, certa vez. Mas acho que já tinha me esquecido desse fato. Eu tinha mesmo esquecido o quanto ela gostava de mim... e o quanto eu me sentia feliz por isso.
“Me empresta a borracha.” Deve ter sido assim que tudo começou. Olhei pro lado e vi aquela menina delicada, séria, extremamente educada e, muitas vezes, aparentemente contida. Manhã após manhã, fui notando que ela era dona de uma inteligência e perspicácia muito particulares, além de ter um senso de humor que muito me agradava. Acredito que a essa altura eu já estivesse testando-a com minhas piadas sem graça e trocadilhos impertinentes. O resultado não poderia ser melhor: fui correspondida à altura, e passamos a formar uma dupla espontânea, sempre pronta para fazer rir uma à outra. Foi sensacional.
Em pouco tempo, estávamos fazendo aqueles trabalhos em grupo. Teatro de inglês, feira de exposições, seminários de história, apresentações de literatura... E, conseqüentemente, os almoços com oito tipos de verdura que sua mãe preparava, os quatro tipos de pães da hora do lanche, os outro três irmãos ajudando ou atrapalhando (dá no mesmo) na hora da farra, a tia-avó desejando sempre “boa sorte” quando saíamos pra pegar o ônibus onde se lia JABAQUARA.
Aprendi muito com ela. Uma placidez, uma calma... mesmo quando a vontade era quebrar um jarro de vidro na cabeça de alguém! Quando esse alguém era eu, ela apenas dizia “da próxima vez, vou sair duas horas atrasada de casa”, irritadíssima com essa minha displicência com horários. Um dia, ela chegou a prometer vingança... mas eu sei que seria incapaz. Esse é o tipo de palavra que não existe em seu vocabulário. Incrível.
Não sei ao certo a partir de que momento nos tornamos amigas, amigas mesmo. Sabe daquelas que se pode dizer com certeza que será pra vida inteira?! ... Mas lembro de umas cartas quilométricas que passamos a trocar. Não existia muito esse negócio de e-mail, e nós tínhamos mesmo predileção pelo papel e caneta. Nem sei de onde a gente tirava tanto assunto e nem que tanto aquelas cartas contavam, mas me lembro até hoje que passava horas escrevendo... e lendo a resposta depois. Fazíamos colagens também, desenhos... Eram presentes por escrito. Confissões, segredos... declarações. Eram provas de amizade.
Dez anos se passaram. Somos as mesmas piadistas de sempre. Ainda preservamos as velhas brincadeiras... e até achamos graça das mesmas besteiras... Eu só não esperava que ela ainda tivesse aquela mesma facilidade de dizer o que me disse... assim, tão espontaneamente, como quem se despede da janela de um trem... que parte agora, mas não sabe quando vai voltar.
Escrito por Paula Biza às 03h02
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Sem cidade, com saudade.
Eu gosto de estar assim, longe. Aqui não tem fumaça, não tem arranha-céu. Não ouço ambulâncias, não me inquieto com os carros de polícia. Aqui só tem gente, só tem mar, só tem terra. E tem Lua também. Ah, tem luar... E quando não é assim, tem sol e tem ar pra gente respirar. Sabe, aqui tem sossego. Sério, tem até silêncio aqui. Ah, tem um cheiro de mato também. E, sim, tem bicho... eu não poderia negar.
O problema é que aqui tem saudade. E, ontem, caminhando com minha avó, me dei conta de que eu definitivamente não quero isso. Ter uma vez ou outra, ainda vai. Mas viver de saudade é algo muito triste. É muita ilusão, sabe? É viver num mundo sem estar nele. Porque, na verdade, você caminha pelo passado... pelo futuro do pretérito... e fica oscilando entre um e outro, ignorando o presente e fingindo não ver um futuro feliz, pleno... realizado. Sim, isso é muito triste. E, não, eu não quero viver desse jeito.
Eu já senti muita saudade; vivo olhando pra tudo o que ficou lá trás. Eu já quis ter de volta uma noite vivida, uma tarde arrependida, uma história contada pela metade... Mas hoje não. Hoje eu não quero o que já foi mastigado, nem o que já engoli. Posso olhar de novo, querer de novo, mas, que fique claro, não almejo nada do passado. É apenas um presente que já existiu e que, por assim ser, perdura; um presente que também quer permanecer... e assim será.
...
E é por isso que eu gosto da praia, que eu gosto do mar... Pois ele já veio, já foi, já voltou de novo... e a gente tem certeza de que ele é o mesmo, mas nunca é igual.
Escrito por Paula Biza às 02h12
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