Calotas
E como em todas as manhãs geladas dessa cidade, fica só o barulho dos carros lá fora. É só o encontro dos pneus velozes com a água que não cansa de inundar. São só os freios, sempre tão barulhentos, e nem sempre a tempo.
Fica também esse gelo nas minhas pernas, nos meus dedos. Esse clima que eriça os pêlos e me leva a encolher o corpo. E é assim que não me vem o sono. É assim que também não desperto. E não há meio termo, já que tudo é claro, embora não seja certo.
O que antes era nada, passa a vir em dobro. E assim como vem, também vai, já sem a mesma importância. E quando eu me acostumar com a ausência, sei que o que era dois voltará sendo um, porque ali estará o todo. Claro que seu valor será outro, já que a dor da perda parece-me agora uma bobagem suportável.
Reconsidero. O que pode, afinal, ser tão importante?? Uso minhas reações como escala. Fico entre a mágoa causada pela perda e o êxtase de uma inusitada conquista. Seria preciso permanecer, mas elas passam.
Vão como pneus em ruas esburacadas, perdendo suas calotas, parando pelos postos, calibrando no limite do que ser perdeu, balanceando na medida que se desalinhou. Só pra seguir, seguir só, por essas mesmas ruas que agora me fazem companhia.
Escrito por Paula Biza às 08h20
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Tudo o que não tem fim
Medo, tensão, quase pânico. Só mesmo passando por situações assim pra gente se dar conta do quão frágil e vulnerável é essa vida. Em minutos, passa-se do caminhar tranqüilo e cantante para a corrida desesperada, esbaforida. Fazia tempo que não ficávamos tão juntas. E aqui me refiro a algo que estava além das mãos atadas, que apertavam fortemente uma à outra. Falo do poder incrível que há dez anos nos uniu e que, naquela noite, fez questão de nos provar que realmente não nos separaremos jamais.
Estávamos cansadas, é fato. Há mais de quatro horas, caminhávamos incessantemente. Ok, houve a tal pausa que nos levou a preciosas aquisições – eu, um colar de quatro reais; ela, algumas presilhas de não mais que isso. Acontece que há horas não tomávamos um mísero copo d’água; só tínhamos almoçado. Chinelo, roupas de banho, uma sainha, um vestidinho. Certamente, não era o melhor figurino nem a melhor condição para que nos perdêssemos no deserto (como se houvesse uma boa forma para isso).
Até agora não entendo como e, verdadeiramente, pra quê ousamos caminhar por aquela estrada tão escura, tão muda, tão sozinha. Talvez estivéssemos mesmo à procura de uma aventura... Antes de dar o primeiro passo, ainda consideramos: o orelhão, a padaria, o sorvete da minha avó. Não, melhor não. O sorvete derreteria; a padaria estava do outro lado da rua; e telefonar... não, não nos entreguemos mais uma vez à dependência dos nossos pais.
...
Partimos. A princípio, eu não estava tão preocupada; aliás, eu até deveria estar, mas jurava pra mim mesma que não estava nem um pouco. Oras, eu sempre fui tão boa pra caminhos; senso de direção impecável – “um fenômeno tratando-se de uma mulher”. Não seria possível que eu errasse tão gravemente àquela altura. Mas, confesso, errei.
Em um dado momento, simplesmente não tinha mais volta. Éramos eu, ela e a nossa ofegante respiração. Nada no horizonte, nada pela estrada, nada no acostamento. Uma ausência que apavora. Porque, se não há nada, a qualquer momento pode chegar algo que não se quer, que se desconhece completamente. E, francamente, estávamos fartas do imprevisível. “Me dá sua mão”, disse-me ela, em um tom indistinguível entre o choro e o riso. Nervosa, eu tentava acalmá-la (quem sabe assim eu acalmasse a mim mesma...): “Tenho certeza que virando à direita, bem ali no final da rua, chegamos em casa.” Eu apenas não sabia que a tal rua não tinha fim.
Depois de tanta escuridão, nervosismo e medo, perdi completamente a noção do tempo. Não sei se minutos, não sei se horas. Mas, de tanto caminhar rumo ao desconhecido, decidimos correr. E, de mãos dadas, esquecemos a dor, ou melhor, as dores e, com os olhos fixos no nada, corremos como nunca. Meu corpo era o corpo dela; meus passos dependiam dos dela; minha respiração só prosseguia com a dela. Era a nossa vida... não havia eu.
Não me lembro mais dos meus pensamentos, mas, se posso dar um palpite, digo que pensava apenas na nossa amizade. Eu não queria ter vivido tudo e tanto ao seu lado para, ao final, conduzi-la à morte. Eu não poderia ser responsável por tamanha tristeza. Ela não merecia; nós não merecíamos. Tínhamos que permanecer. Por isso, juntas, corremos ainda mais. E, finalmente, quando pensávamos ter encontrado a saída, vimo-nos ainda mais perdidas. “Se o vento vem de lá, é contra ele que nós vamos.” Mais uma vez, decidimos seguir pelo escuro.
Ela pensou na família; eu disse para pensar em nós. Ela quis chorar, eu disse para acreditar. Ela disse para pedir ajuda, eu, então, tive medo. Veio um buraco, vieram insetos, veio o cão, a moto, o motoqueiro, o susto, a desconfiança, a raiva e, enfim, uma mulher... um homem... e algumas crianças. “Siga em frente três quarteirões e vire à esquerda.” Corremos mais. Luzes, asfalto, carros, pedestres... ah, civilização! O medo deu lugar ao alívio; e as mãos continuaram firmemente juntas.
Eu, minha amiga, minha irmã: não decoramos o caminho, mas aprendemos a lição.
Escrito por Paula Biza às 00h44
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