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Eu não mudo

E como se eu precisasse de um motivo para escrever, escrevo. Porque é fácil falar, para mim, é fácil escrever para mim. Só para que eu leia. Mas escrever para ser lida, escrever para ser avaliada por olhos quaisquer, isso me dá medo. Então passo a procurar motivos, alvos, destinos, para que meu texto tenha sentido, tenha por quê. E, ao começar, me perco, porque não vejo razão, porque quem deveria lê-lo talvez jamais o conheça.

Apesar da minha profissão, não gosto de escrever para qualquer um. Quero que este ou aquele sejam os meus leitores, pois só eles poderiam compreender; eu acho. Não quero escrever sobre o que não está em mim agora, ou o que pode estar em mim daqui a pouco. Não me venha com sugestões, com idéias, com assuntos sobre os quais eu não me interesso.

E, afinal, sobre o que eu me interesso mesmo?? ... Acho que me interesso pelo amor. Não sei por que, mas acho isso. Acho que é o interesse que me acompanha nessa vida por mais tempo, o tempo todo. Eu vivo mudando meu foco, meus interesses nunca são os mesmos, não duram, não seguem. Só o amor insiste em ficar, em ser tema, teimando comigo. E eu gosto, porque não me canso, não paro de tentar entendê-lo. Gosto de decifrá-lo, de ficar pensando em sua existência, em sua ausência. No mais, eu não sou tão dedicada. Não tenho tanta paciência com outros assuntos. Não, não tenho mesmo.

Me cansa falar de trabalho; me cansa falar de arte; me cansa falar de amigos, me cansa falar de viagens; me cansam as músicas, me cansam os versos; me cansa a própria língua. As mazelas, a política, a morte, o indecifrável... esses eu realmente nem tolero. Não quero saber deles e que eles também não saibam de mim. Quero ficar longe, onde eu talvez não os veja; onde, talvez, eu sequer saiba que eles existem de verdade.

Quero estar onde está o bem, as pessoas que ele praticam. Quero viver onde vive a alegria, pois só ela conduz ao amor. Quero brincar o máximo que eu puder, e falar sério só quando realmente for necessário. Quero viver porque gosto e não porque é preciso; é assim que faz sentido para mim. E não quero ter que conviver com a arrogância, o desprezo, a ignorância ou qualquer droga desnecessária dessas. Se eu estou nessa viagem, é apenas por uma razão: amar. E tudo o que nesse mundo não tiver isso, sinceramente, não me interessa.



Escrito por Paula Biza às 14h23
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Deixa que eu falo

Não é fácil conhecer as pessoas. E, aqui, falo do entendimento profundo que se pode ter sobre alguém, embora também considere complicado o outro sentido da palavra (afinal, aproximar-se de um desconhecido qualquer para conhecê-lo nunca foi tarefa simples – mesmo para os mais atirados). 

Nesse fim-de-semana, tive grandes exemplos do que é conhecer e do que é desconhecer alguém. Quanto menos se fala, mais se entende a outra pessoa. As palavras podem ser escolhidas, calculadas; podem ser ditas quando não se quer dizer. O olhar não. Ele entrega a intenção. E é só quando você entende alguém com um olhar que você pode dizer: eu conheço essa pessoa.

Foi tão nítido. A noite estava fria; garoava. Estávamos todos em roda, rindo, bebendo e conversando, quando ela chegou. Nenhuma palavra, e eu entendi perfeitamente: “Mas que saco”, era o que você dizia. Respondi com um: “Eu sabia... Já era esperado, não?!” ... Você concordou. Claro que, nessa hora, não foi só o seu olhar que falou. Aquele seu sorriso de lado, que eu também já conheço, contribuiu para que o diálogo ficasse ainda mais transparente. 

Algumas horas se passaram. É verdade que, a essa altura, já tínhamos verbalizado muita coisa. Mas seu olhar ainda me diria exatamente o que eu precisava ouvir. Eu estava inconformada com aquela cena, quando você se aproximou. Notei seu olhar sussurrando: “Não acredito no que vejo! Que atrevimento!” ... Sim, eu também fiquei decepcionada. Mas foi melhor assim (aliás, bem melhor assim). Eu apenas conheci mais quem eu conhecia muito pouco. Porque conhecer, como já disse, está além do que vem da boca.

“Eu não te conheço” – mas entendo o seu olhar. Certamente essa variação acontece com maior freqüência. Ninguém se esconde atrás desses benditos, é incrível. E, veja que vantagem: é possível travar conversas íntimas, particularíssimas, mesmo no meio da multidão, a metros de distância, com barulhos ensurdecedores por toda parte. 

Claro que o olhar intimida também. Acontece que ele é sincero demais. Nunca deixa de falar nada. É um sem-vergonha! E é por isso que existem as desviadas de olhar; o fechar de olhos, a escuridão. Ignore o olhar e perca o medo. Ignore o olhar e seja você mesmo – refiro-me tanto ao olhar alheio, quanto ao seu próprio olhar. Quando não vemos e não somos vistos, o que sobra? ... Sobra o que somos.

“Acho que estou começando a conhecer você. Qual seu signo?” ... Seu olhar só não tinha me dito que você acreditava nessas coisas.



Escrito por Paula Biza às 00h12
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